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O mito da alta performance em tecnologia

Para além dos dashboards: por que velocidade, volume e rankings falham ao medir impacto real em times digitais.

Por: Paulo Exel, sócio-diretor da Rooby HR e colunista da Você RH.


Originalmente publicado às 23h09min do dia 14 de Dezembro de 2025 na Você RH. Clique aqui para acessar o artigo original

Composição 3D de Barcos de papel em padronagem listrada. (Eoneren/Getty Images)

Fim de ano. As empresas entram em modo de revisão de desempenho, calibram notas, organizam rankings e tentam enquadrar complexidade humana em critérios objetivos. Em tecnologia, porém, há sempre um ruído que insiste em permanecer, um desconforto silencioso que raramente ganha espaço nas conversas mais formais: será que estamos realmente avaliando performance ou apenas medindo volume? Talvez a pergunta mais incômoda seja outra. O que exatamente chamamos de alta performance em times de tecnologia, e por que seguimos tão seguros de que sabemos reconhecê-la?

No Brasil, ainda persiste a fantasia de que times de engenharia podem ser avaliados com a lógica de áreas operacionais. A crença na velocidade da sprint, na quantidade de tickets fechados, no volume de entregas, na produtividade medida como se fosse uma linha de produção. É uma narrativa sedutora pela simplicidade, mas profundamente equivocada. Um time que entrega muito pode estar acumulando uma dívida técnica que compromete o futuro. Um time que entrega pouco pode estar construindo bases que sustentam anos de evolução. No meio disso, o RH faz um malabarismo para decodificar um universo sofisticado em notas numéricas que carregam uma certeza artificial. Criamos, sem perceber, um teatro de avaliação que frequentemente premia visibilidade, não impacto. 

Enquanto isso, diversas empresas de tecnologia já abandonaram esse modelo. A Netflix avalia impacto e maturidade de decisão, não velocidade. O Google mede sustentabilidade técnica por meio das métricas DORA (desenvolvidas pelo grupo de Pesquisa e Avaliação de DevOps do Google) e reforça que elas só fazem sentido para times, nunca para indivíduos. O Spotify olha para a saúde do sistema, e não para o desempenho isolado de pessoas. Atlassian avalia fluidez, não produtividade. GitLab mede previsibilidade e clareza em um contexto global assíncrono. Amazon observa a força dos mecanismos que sustentam o resultado, e não o resultado em si. Todas essas referências revelam uma verdade que o Brasil ainda hesita em admitir: performance em tecnologia não diz respeito a volume, e sim a discernimento.
 

Empresas pequenas não têm margem para errar

Mas existe uma crítica necessária. Essas empresas operam em mercados maduros, com margens elevadas, grande musculatura técnica e culturas que sustentam autonomia em escala. São benchmarks valiosos, mas estão longe do contexto de grande parte das empresas brasileiras, especialmente das que têm negócios cujo core não é tecnologia. E aqui reside o ponto mais sensível. Em empresas menores, com pressão intensa por resultados e equipes enxutas, a realidade é outra. Errar não é um custo absorvível. É risco real para caixa, credibilidade e operação. Times pequenos não têm o luxo de desperdiçar ciclos. E, mesmo assim, a lógica da avaliação não pode ser reducionista. A essência permanece: performance em tecnologia continua sendo consequência da qualidade das decisões, independentemente do porte da organização.

Nas empresas em que tecnologia não é o core, o desafio é ainda mais complexo. Quando o negócio não entende profundamente o valor técnico, cria-se uma distorção perigosa: premiam-se comportamentos rápidos, visíveis e imediatistas, enquanto se penaliza profundidade, reflexão e postura preventiva. O profissional que questiona requisitos é visto como lento. O que levanta riscos cedo é lido como pessimista. O que cuida da arquitetura é confundido com quem não tem senso de urgência. A régua de performance, nessas horas, deixa de medir impacto e passa a medir alinhamento ao ritmo ansioso da operação.

Empresas menores não precisam copiar grandes players globais. Elas devem copiar o princípio. Em um time de cinco pessoas, performance não é a soma de entregas individuais, mas a capacidade do time de entregar sem comprometer o futuro, de reduzir retrabalhos, de comunicar com clareza, de se apoiar mutuamente, de prever riscos, de sustentar a arquitetura mínima para continuar evoluindo. É assim que se constrói maturidade técnica em ambientes reais, e não em apresentações corporativas.

Como identificar performance real

Tudo isso exige um deslocamento de perspectiva que vai muito além da tecnologia. Para identificar performance real, é preciso observar o que não aparece nos dashboards. A qualidade das decisões técnicas, por exemplo, define o futuro com muito mais nitidez do que o volume de tarefas concluídas. A saúde arquitetural sustenta ou destrói a capacidade de inovação. A redução de riscos é performance silenciosa, invisível e absolutamente determinante. A maturidade emocional do time define sua resiliência. A clareza entre negócio e tecnologia é o eixo central de qualquer resultado consistente. Nada disso cabe em métricas tradicionais, e ainda assim tudo isso é performance.

Nesse cenário, o RH brasileiro tem um papel ainda mais crítico. Quando o negócio não é técnico, quando a liderança não domina engenharia, quando o tempo é escasso e a pressão é alta, o RH se torna o único guardião capaz de assegurar critérios que valorizem profundidade e contexto. Cabe ao RH ajudar a desenhar modelos de avaliação que respeitem a natureza do trabalho técnico, criar espaços de diálogo entre engenharia e negócio, educar líderes sobre maturidade técnica, abandonar métricas individuais que fragmentam times e estimular conversas que reconheçam impacto sistêmico, e não apenas entregas imediatas. Em empresas pequenas ou em negócios tradicionais, o RH faz a ponte que sustenta a inteligência da organização.

O mito da alta performance nasce quando medimos apenas o que conseguimos ver e ignoramos o que realmente importa. Times de tecnologia não fracassam por falta de esforço. Fracassam por falta de direção. Não é a cobrança que eleva performance. É o contexto que a possibilita. Talvez o grande desafio para 2026 não seja criar novos indicadores, mas desenvolver a coragem de avaliar o que não cabe em planilhas, mas define o futuro de qualquer organização.

O resto é só ruído.

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